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terça-feira, abril 20, 2010


Por onde quer que você vá haverão os profetas do desapego, aqueles que acham que você deve se desapegar de tudo, mas que não deixam de fazer o seguro do carro que tanto adoram ou colocar o melhor alarme nele. Estes pra mim são os falsos desapegados: pregam uma coisa, mas agem de outro modo (não me refiro a pastor algum). Eu queria falar de um desapegado de verdade, aquele que vive no mundo do ar. Fui assistir excelente “Amor sem Escalas” há um tempo atrás, cujo nome original é “Up in the Air”. Meu, não entendi por qual razão o nome em português ficou tão estranho, e principalmente nada expressa o que o filme tem a dizer. Aliás, o filme tem muito a dizer; não é apenas a história de um homem que passa o seu tempo no ar, de cidade em cidade, demitindo pessoas. O filme retrata um homem desapegado de tudo e todos, e tem uma sutileza fora do comum, como vi em poucos filmes americanos. Retrata de modo brilhante os relacionamentos humanos atuais: plásticos e frios. Tanto faz se a relação seja feita pessoalmente, por um computador ou celular, o pano de fundo é sempre o mesmo: a frieza. A falta de empatia total com o outro, seja lá quem o outro for. No filme percebe-se este comportamento desapegado claramente: não se ouve o que o outro diz; não há compaixão; o importante é entregar no final de cada demissão um manual, afinal a empresa não poderá ter problemas legais. Mas como disse esta história da demissão não é o fator principal do filme. Logo em seu início aparecem imagens do céu, vistas aéreas de cidades, porém a música que toca fala claramente da terra, ou do apego. Lembrei-me de um texto que li há anos. Ele dizia que quando as pessoas tinham a sua terra elas nunca ficavam desempregas. Hoje é diferente, apenas “fica-se”. Fica-se no emprego, pois somos seres descartáveis. Fica-se nos relacionamentos, pois quando ele der muito trabalho, basta cair fora, e talvez avisar o outro de um jeito fácil, pode ser pelo celular. O mundo dos desapegados funciona desta forma, sem chance para todo e qualquer relacionamento humano. Quando nos relacionamos como gente (por mais ridícula que esta frase possa parecer) o apego sempre tem o seu lugar garantido. A casa precisa ser gostosa, e de preferência espaçosa, para a convivência familiar. É bom ter alguém real ao nosso lado, para os bons e maus momentos. Trabalho não é apenas o lugar de ganhar dinheiro ou cumprir metas, mas de fazer novos amigos e apegar-se ao trabalho de forma amorosa. Relacionamentos nunca foram o local preferido do desapego. Quem assim age está longe de ter características humanas. A casa do personagem do filme é vazia, propositalmente; a mala é prática e tem roupas de uma mesma cor, e ele é um especialista na arte de passar pela alfândega. Impecavelmente desapegado em seu trabalho e na sua vida particular. Junta milhas das companhias aéreas só para chegar à sua meta, mesmo que não saiba o que fará com elas. Conhece os restaurantes de cada uma das cidades que vai, e pouco se importa com aqueles que demite. Ele não se afeta, e aí manifesta a principal característica do desapego: a falta de afeto. Quem se afeta, é afetado sempre. A vida não tem apenas um sentido prático e material. Não dá para colecionar pessoas da mesma forma que se colecionam cartões. As relações plásticas ou pasteurizadas e feitas através de “scripts”, são a marca registrada dos desapegados. Claro que ser apegado demais também faz mal para a vida. Outro exemplo maravilhoso é o desenho “UP”. Aqui o protagonista precisava desapegar-se do passado para continuar a viver e ser uma pessoa mais nutritiva. Quem se apega ao passado tende a ficar amargo e chato. Às vezes é preciso parar e pensar: Será que isto ainda me serve? Será que o meu apego não está fazendo mal para as outras pessoas?De novo o limite é o afeto; é ele que nos distingue. O afeto é verdadeiro. Não confunda com gente que trata os outros como “coisa” e se aproxima somente para ganhar. Não é disto que falo aqui. Aliás, quero os manipuladores longe da minha vida. Tem gente que não percebe, de tão carente que é, o riso falso do outro, a conversa simpática e genérica, e outras formas de manipulação dos desapegados. Quem sente afeto, se afeta com o comportamento alheio. Só o afeto é que nos faz saber que o apego é importante em alguns momentos e o desapego em outros. Ninguém pode viver desapegado de tudo, e muito menos apegado a tudo. Ambos os comportamentos espelham doenças. A diferença é que o envolver-se dá trabalho, causa dor muitas vezes, e tem gente que prefere tapar com uma rolha o seu sentir. É impossível envolver-se sem se apegar, e talvez não seja à toa que hoje existam tantos solitários convictos alardeando aos quatro cantos o oficio do desapego.

Um comentário:

Liss Teles disse...

Denis,

Você continua escrevendo muito bem! Tenho sempre uma leitura gostosa, saudável e inteligente quando passo por aqui. E hoje não foi diferente. Excelentes texto e ponto de vista!

Por isso, não poderia deixar de te parabenizar e desejar que Deus continue multiplicando seus tantos talentos e te abençoe sempre!

Um beijo amigo.