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sábado, julho 25, 2009

Som


Quanto maior o silêncio mais intenso se faz o barulho.

Sozinho num quarto no meio da noite, o pingo compassado da chuva sobre o parapeito da sacada, não me deixava dormir. Nada mais existia no mundo, na vida, no espaco. Tudo era um som de pingo d´água.

Pedia por um rádio ligado transmitindo um jogo de futebol, uma moto acelerando no meio fio, um apito de guarda na esquina, uma buzina de caminhão, só para não ouvir aquele único som do pingo compassado. Ele não me deixava dormir. Ocupava todo o meu ser e minha existência.

Com os olhos forçadamente fechados eu tentava imaginar crianças chorando, gritando, eu queria imaginar-me dentro de um avião da FAB em voo, eu queria me sentir num jet ski adentrando o mar ou mesmo ouvir o tac-tac nos tijolos de uma construção. Mas o pingo pingando não me permitia. Talvez fosse pior se tivesse um pernilongo me rondando. Seria a morte! Pelo menos eu garantiria a dele.

Tudo porque o silencio tem vasto espaço. Experimente encher a cara para esvaziar a mente. Tipo acordar na segunda-feira depois de ter bebido todas no domingo, qualquer mínimo ruído se transforma em trovão, abalo sísmico, maremoto. Por isso é melhor manter o eco do fogo das lamparinas em seu juízo e desperte para vida como ela é. Lembre-se movimento gera som. Som pelo movimento é vida, porque silêncio mesmo temos reservado para a eternidade a sete palmos....kkkkkk

E agora, friamente, revolto-me pensando que tem gente que reclama do som de britadeira, bateria e ronco de motor. Quero ver pensarem o mesmo, depois de serem torturados pelo uníssono pingo compassado de chuva no parapeito da sacada, durante toda uma madrugada.

Falando nisso, o ponteiro do meu relógio está me alucinando. Acho que preciso voltar para uma grande e barulhenta metrópole, para só então, dormir em paz e não ouvir meus pensamentos no toque de meu coração.

Um comentário:

Yuri Steinhoff disse...

antes de tudo (se houve um antes) era o silêncio...