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domingo, julho 22, 2007

("Memoirs and the City")

Pierre-Auguste Renoir
(1841 - 1919)



Tanta gente escrevendo, para mim no outro blog, que por um problema de senha não consigo entrar, mas principalmente pro livro de mensagens do website, e eu sem condições de dar resposta. Infelizmente o fator-tempo não ajuda. Amanhã já estaremos de novo na estrada, ainda que rapidinho, e isso requer toda uma logística que toma muito tempo.

Mas agradeço os feedbacks _ dos que estiveram nos shows, dos que leram o blog, dos que apenas escreveram pra mandar alguma coisa. E pra não dizer que não retribuí, mando o que de melhor posso mandar no momento, que é a indicação de um livro que estou lendo: "Istambul, memória e cidade", de Orhan Pamuk. Achei este livro no aeroporto Tom Jobim, ainda em inglês ("Memoirs and the City"), e só ao chegar de volta descobri que ele também já existia em edição brasileira. Como a tradução daqui foi baseada na edição inglesa e não no original,e ainda o fato que tenho de estudar mais Ingles, não estou perdendo nada.

Orhan Pamuk, vocês já sabem, ganhou o Nobel de literatura no ano passado, e eu ainda não havia lido nada dele. Não gosto de ficção. Acho sempre que a realidade é muito mais interessante e criativa do que aquilo que se inventa. Quando pela primeira vez li Amós Oz, considerado o grande escritor de Israel no momento, minha amiga Juli Bredley, também escritora, já tinha me avisado de que eu iria gostar muito mais do livro de memórias de infancia dele ("De Amor e Trevas") do que de sua obra ficcional. E não deu outra.

Memorialistas são raros, e aqui no Brasil Pedro Nava ainda é imbatível. A jornalista embutida em mim também ama relatos de viagem _ antigos como "O Grande Bazar Ferroviário", de Paul Theroux ou "Uma Parisiense no Brasil", de Adéle Toussaint-Samson, ou atualíssimos como os escritos de Åsne Seierstadt sobre Cabul e Bagdá. Mas a memória de infância, quando traz a cidade junto, vira um relato histórico, imperdível e esclarecedor. É o que acontece no livro de Amós Oz, e também no de Pamuk. Depois dele, Istambul passou a ser minha também, e tudo o que está acontecendo na Turquia passa a ser do meu direto interesse.

Mas não posso deixar de citar este trecho de "Istambul, Memória e Cidade", que me caiu como uma luva. Cada um que complete com o nome de sua cidade, se quiser.
(a tradução é minha, sorry. Não tenho a versão em português do livro)

Conrad, Nabokov, Naipaul _ estes são escritores conhecidos por ter conseguido migrar entre idiomas, culturas, países, continentes e até civilizações. Suas imaginações se alimentaram do exílio, nutridas não pelas raízes, mas pela falta delas. Minha imaginação, no entanto, requer que eu fique na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, contemplando a mesma vista. O destino de Istambul é o meu destino. Estou ligado a esta cidade porque ela fez de mim quem eu sou.

3 comentários:

Luiz Ferando disse...

Tenho um muito a comentar sobre este assunto, não ia caber no post, mas vou tentar num segundo momento. De antemão lembrei desse poema do Mario Quintana que representa muito bem esse “mimetismo” entre a cidade e seu habitante. Fico por aqui, para não macular a poesia...

Abraco
Luiz Fernando


“O mapa


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...


(E nem que fosse o meu corpo!)


Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...


Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)


Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso


Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)


E talvez de meu repouso...”

Mario Quintana

(eles passarão, eu passarinho....

Paulo Seixas disse...

Sempre achei curiosa a relação que os cariocas têm com a sua cidade. Há um vínculo interessante da pessoa com o seu bairro de nascimento, tipo carioca da Tijuca, ou da Penha, ou de Laranjeiras. Às vezes isso vai ao detalhe das ruas, fulano é carioca, da Urca, da rua tal. Essa relação é muito forte no Rio. São Paulo também tem, mas muito menos. E em Belo Horizonte isso não existe: só se é belorizontino, não há belorizontinos da Serra ou da Floresta. Pode ser pelo fato da cidade ser planejada, quem sabe... Mas no Rio, isso me evidencia como que uma apropriação da cidade pelo cidadão: todo mundo é um pouquinho dono daquele pedacinho que nasceu. Como você diz, parece que todo mundo tem uma memória de infância que traz a cidade junto. Noves fora todas as mazelas contemporâneas, acho fascinante a relação que o carioca tem com sua cidade. Como estive aí pra gravar o disco por quase dois meses direto, fui nesse tempo me encariocando um pouco no dia a dia. E era como se sobre a cidade pairasse uma enorme sineta sempre prestes a tocar e anunciar o recreio. Não consiguia olhar o Rio e não ter a sensação de hora do recreio. Descobri de onde vem a implicância dos paulistas com o ritmo de trabalho dos cariocas: no Rio se trabalha na hora do recreio, naquele enorme pátio ensolarado. E olha que foram 2 meses na av. Atlântica, mas sem tempo nem pra atravessar pro calçadão. Durante esses dias, meu sangue carioca por parte de mãe estava quase me tornando um carioca-de-algum-lugar. Mas eu sou mineiro demais pra isso, hehe.

Lucy Stroiter disse...

omando carona no comentário do paulo, eu como mineiro do interior e morando em BH a maior parte da vida posso dizer que a falta de ligação do belorizontino com o bairro é que a cidade é meio amorfa neste sentido, nem a prefeitura sabe onde termina um bairro e começa o outro, as delimitações são imprecisas, e identidades também, fato que uma amiga carioca que veio morar aqui sempre achava estranho.
creio que tirando santa tereza e seus moradores, devido ao seu jeito de cidade do interior e de sua história musical - clube da esquina, nunca ouvi outro morador da cidade se referir ao seu bairro especificamente.